A economia de ruído chega a ser tamanha que o marido de uma amiga contou dia desses que, durante uma partida de futebol feminino à qual assistia pela televisão, ele teve certeza que a trasmissão estava com problemas. Ouvia-se quase nada - ou muito pouco - entre uma jogada e outra. Ele aumentou o volume, mexeu no cabo da antena, apertou botões e nada. Ao mudar de canal, descobriu que não havia defeito de transmissão, não. Simplesmente este era o estilo alemão de transmistir a partida (Galvão Bueno não teria muito futuro por aqui)
Vinda de uma família de sangue baiano, sem muito jeito com o recatamento ou com o fino trato, fui criada no meio do barulho, da música, do furdunço e da confusão. O silêncio germânico às vezes me incomoda, mas estou na casa deles e o que me resta é tentar me adaptar. O que implica também em reduzir o volume dos meus decibéis.
A turma brazuca que vive em Bonn também vive a mesma situação. Frequentemente a gente escuta a frase "die Brasilianer sind nett aber so laut!!" (os brasileiros são simpáticos, mas tão barulhentos!!) - o que de todo não é uma injustiça, mas ainda assim nos deixa um pouco indignados com o tom de exagero. Nossa mesa no almoço da DW, por exemplo, é a mais agitada e sorridente. Mas a gente não chega a ponto de incomodar a refeição de ninguém... eu acho...
Dia desses às 21h20 eu cheguei em casa, liguei o computador eu mal esperava para falar com a minha mãe pelo Skype. Minha conexão wlan do prédio só funciona bem perto da janela. Chamada feita, fui perguntando as novidades para ela enquanto trocava de roupa e pegava um suco na geladeira no meu microapartamento. Óquei, eu falava um pouquinho alto nessa hora. Mas a impaciência do meu vizinho não o deixou esperar mais de cinco minutos (juro!) para vir bater na minha porta: "será que dá para falar mais baixo, por favor? Ou então fechar toda a sua janela? estou tentando dormir e não consigo!". "Claro, desculpe", eu disse, sem querer estender a conversa. Ao fechar a porta, pensei: "pô, quem é que vai para a cama às nove da noite?!?!?"
Esta semana a reclamação foi no meu aniversário. Em determinado momento, alguém resolveu puxar o parabéns - imagina, aniversário sem parabéns não tem graça! Versão em português, versão em alemão... quando estava apagando a última velinha veio o garçom (que também tinha a maior pinta de estrangeiro) e pediu, meio sem-graça, que parássemos de fazer barulho. Inacreditável! Num bar cujo nome é Havanna e leva a foto do Che estampada no cardápio, música ao fundo, cheio de gente jovem, não se pode cantar "parabéns"! Surreal! Ainda acho que se tivéssemos cantado apenas a versão na língua local, talvez não tivessem implicado com a nossa alegria. Enfim, decidi não colocar meus pezinhos lá novamente tão cedo.
Turma do barulho no Havanna
Só digo uma coisa: aaaaahhhh, se eu tivesse uma laje!!!!
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