sábado, 9 de julho de 2011

Sobre burcas e berimbaus

Um dos poucos assuntos sobre os quais eu realmente me calo é religião. Sou cristã (talvez até possa me definir católica, pois apesar das minhas centenas de críticas ao Vaticano), mas sempre respeitei a fé e a convicção alheias. Não me lembro de algum dia ter tentado convencer alguém à força de que as minhas crenças seriam mais corretas. E sempre detestei quem fizesse isso.

Mas há coisas que não passam despercebidas. E é impossível dizer que não me sinto incomodada, de certa maneira.

A forte presença muçulmana no lado ocidental da Europa não é mais novidade para ninguém. Claro, eles - ou melhor, elas - são bastante visíveis, por assim dizer. A todo momento, por menor que seja a cidade, a gente topa com mulheres usando véus cobrindo os cabelos ou mesmo burcas inteiras, deixando só os olhos de fora.

Mas na semana passada foi a primeira vez que eu vi uma jovenzinha turca jogando capoeira. Foi durante a apresentação de um coral formado por brasileiros e alemães, em Colônia. Um estranho choque cultural.

A capoeira é uma das coisas que mais identifica o Brasil fora do Brasil. Ver aquela menina sorridente, corpo esbelto, gingando de um lado para outro e trocando passos com outras meninas - e até homens - foi lindo de ver!

O que chamava mais a atenção, no entanto, era o fato de que a cada pirueta no ar, ela logo jogava as mãos na cabeça, num movimento meio desesperado tentando se certificar se o cabelo ainda estava completamente sob o véu. E na medida em que o jogo de corpos ia ficando mais intenso e mais rápido, mais ela se desconcentrava com o pano.

Achei isso tudo meio paradoxal. Em uma luta-dança cheia de movimentos corporais sensuais, abdomes travados e suados, a menina tentava esconder a todo custo até a  ponta do cabelo... Eu já tinha percebido que por baixo da camiseta do grupo de capoeira ela usava uma espécie de collant grossa cor da pele e um calçolão preto por cima, que impedia qualquer possibilidade de mostrar um pedacinho sequer do corpo da moça.

Ao mesmo tempo em que admirei aquela garota, por ela ter dado um jeito de fazer o que gosta dentro das limitações impostas pela religião, aquela cena me deixou um pouco indignada. É claro que vir de um país onde as mulheres desfilam praticamente peladas no carnaval, onde mostrar o corpo está longe de ser tabu, dificulta a minha compreensão sobre como algumas culturas consideram esse tema. Mas ainda assim, não consigo deixar de defender que as pessoas tenham o direito de ser livres em suas escolhas. Que elas possam decidir o que vão ouvir, vestir ou dançar, sem opressão ou ameaças religiosas.

Adoraria ter visto os cabelos da turquinha no ar, e suas mãos livres, o que deixaria seus impressionantes movimentos ainda mais bonitos.

Um comentário:

  1. Mari, eu também fiquei curiosa, indignada, boquiaberta, quando sentei, pela primeira vez ao lado de uma mulher com burca na Guiné Bissau. Lá estava ela, num almoço de família em comemoração muçulmana semelhante ao Natal em que eu havia sido convidada e, inocentemente, tinha ido de vestido de alcinha, decotado. Ainda bem que sempre ando com os paninhos. Pra completar, ela tinha duas filhas. Uma bebezinha, que ainda tinha direito de ficar sem cobrir a cabeça e uma outra fofa, de 5 anos, que já usava um veuzinho. A pessoa que me convidou para o jantar era um muçulmano de cabeça bem aberta para o mundo e para as outras culturas. E a mulher de burca era esposa do sobrinho dele, que seguia uma linha mais radical da religião. A mulher parecia uma sombra. Não se comunicava com ninguém, teve de ir comer lá dentro, no cantinho, para que ninguém visse o seu rosto durante o almoço. Bastante estranho. Mas, como você disse, sempre dá para burlar a burca e o véu, e adaptar-se para fazer o que se gosta. Uma delícia essa imagem da menina jogando capoeira com véu. Lugar de diversidade e respeito a muitas culturas em uma só roda. A liberdade de mostrar o nosso corpo aqui no Brasil é maravilhosa, mas ao mesmo também nos prende a uma falsa liberdade do corpo, que no fundo não existe. Muitas das mulheres que usam minissaia ou shortinho são submissas ou se expõe por algum motivo que não necessariamente significa liberdade. É tudo muito confuso. Pode ser que uma mulher, sob o véu, conheça melhor o seu corpo do que a que mostra a marca do biquini por baixo da calça da gang. E por aí vai. E o mais confuso é que tudo isso se mistura com religião, aí dá mesmo um samba do crioulo doido. Ou uma roda de capoeira da muçulmana recatada. Adoro as nuances do mundo. Beijos (é a primeira vez que realmente paro para ler o seu blog, depois de muito tempo). Que legal. Não sabia que vc tinha entrevistado a Marta. Devia ter vendido para um veículo daqui, uma revista feminina, sei lá... Gostei! Beijos

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